É por isso que você não joga de Drow

Porque você não joga de drow no RPG?

Uma das coisas que eu mais detesto no RPG é quando dizem: “ah, eu já sou humano na vida real, então preciso jogar com outra raça”. Essa frase não faz nenhum sentido em D&D, porque a maioria só escolhe raça por mecânica, e não por interpretação.

E a pessoa pega um bugbear, um bicho que fede, rejeitado em qualquer cidade, mas quer ser tratado como se fosse só um turista no mercado.

Se você joga de tiefling, drow ou orc, mas ninguém te olha torto, ninguém te barra no portão, ninguém te persegue, então você não está se sentindo de outra raça; você só está usando uma skin mais forte que humano.

E se a sua mesa não explora consequência nenhuma através da raça, então não adianta reclamar que não quer jogar de humano porque já é humano. Nesse caso, você é humano sim, só mudou a cor da ficha.

Não estou falando para trazer preconceito ou pressão dentro da mesa, mas sim que, se precisa ser tratado como todo mundo e ter os mesmos privilégios que um humano, mesmo sendo muito mais avançado mecanicamente que um, isso está completamente errado, porque tem que pesar o lado interpretativo para compensar a balança.

Se fosse Storyteller ou outro jogo mais interpretativo, a frase “eu já sou humano na vida real e quero experimentar outra raça” faria mais sentido. Mas quando a diferença é apenas enxergar no escuro… fora que é muito mais fácil trazer um humano pra mesa do que um alienígena cuja cultura a gente nem sabe como funciona direito.

Na prática, essa pessoa não quer interpretar outra raça, mas sim criar um personagem de videogame: girar a roleta, ver o bônus, clicar e pronto.

A profundidade da raça fica no livro, mas o mais curioso é que, se você perguntar pra esse mestre ou jogador por que ele não joga de humano, ele não vai saber explicar. Ele só vai repetir: “eu já sou humano na vida real, e isso é um jogo de fantasia, então qual é o sentido de eu jogar de humano?”

Como se, no mundo real, essa pessoa tivesse talento, bônus, proficiência extra, pontos de atributo distribuíveis por nível e a capacidade de conjurar magias.

A verdade é que o humano é visto como sem graça porque ninguém para pra construir nada em cima. Fazem humanos genéricos, com história genérica, personalidade genérica, e depois culpam a raça por ser chata.

Não é a raça que é chata, é você que não investiu nada nela.

Essa galera quer viver outra experiência, mas não quer aprender outra cultura, outra mentalidade, outra visão de mundo. Quer continuar pensando como humano, falando como humano, agindo como humano, só que com antena, asa, chifre, pele colorida e +2 em alguma coisa.

No fundo, o pessoal não quer interpretar, e sim customizar. Não faz absolutamente nada diferente quando escolhe outra raça.

Justamente por isso, a frase real deveria ser: eu não quero ser drow, e sim um humano que enxerga no escuro.

D&D é um jogo de combate. Essa visão interpretativa não existe, ou existe muito pouco. O sistema inteiro gira em torno da criação da ficha e do progresso do personagem.

É rolagem pra acertar, rolagem pra dano, rolagem pra resistência, pra iniciativa.

As raças têm bônus não porque representam culturas profundas, mas porque o jogo foi construído pra isso: montar um grupo versátil, sobreviver à masmorra, matar monstros. E é normal querer bônus.

É normal querer vantagem, visão no escuro, resistência a dano, magia extra, proficiência. O jogo quer que você tenha isso, e se não fosse pra ter vantagem mecânica, todas as raças seriam iguais.

O problema não é escolher o melhor combo, não é otimizar da melhor forma possível. A frase só faz sentido quando a interpretação está em jogo, quando você quer outra perspectiva, outro papel, outra vivência racial.

Mas vamos ser sinceros: isso é raro nas mesas brasileiras. Não porque o pessoal não saiba interpretar, mas porque a própria comunidade é moldada por streams, vídeos, fóruns e mesas onde o foco é sobreviver, combar, fazer escolhas inteligentes.

E tá tudo bem. Não tem nada de errado nisso.

O errado é fingir que escolha de raça é sobre “viver algo novo”, quando, na prática, é sobre “ajudar mais no combate”.

Isso naturalmente faz nossa comunidade focada em eficiência, e não em uma antropologia fantástica — se é que posso usar esse termo.

Isso não é um defeito, é um estilo de jogo.

Não vem vender a ideia de que é por interpretação quando o foco da mesa inteira é powergaming desde o primeiro nível.

Enfim, falei muito pra justificar por que essa frase é tão sem sentido pra mim.

Se você ainda não entendeu, eu vou resumir mais uma vez pra ficar claro:

A frase “não quero ser humano, já que sou humano na vida real” só faz sentido se a pessoa realmente quiser interpretar outra cultura, outra visão de mundo.

Mas como a maior parte foca em combate, na prática a pessoa quer bônus, não uma experiência racial diferente.

A frase é besteira, e jogar de humano em D&D não me faz repetir mais do mesmo só porque eu sou humano na vida real.

Nem em um milhão de fichas eu estaria repetindo a mesma coisa.

Se é a primeira vez que você tá aqui, ativa o sininho. Vou sempre trazer teorias malucas sobre RPG.

Fico por aqui. Até.


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