Jogando com centenas ou milhares de pessoas diferentes [desde 2011], percebi que alguns mestres iniciantes não leem sistemas com medo de prender a liberdade dos jogadores ou a própria criatividade.
Eu, como mestre comum, sempre respondi que a leitura NUNCA barra a criatividade. Ler estimula ideias e dá imersão ao mundo por apresentar conceitos já testados; ficar sem ler VAI tornar sua mesa incompleta.Todavia, nunca estive tão errado!
Na verdade, jogador de RPG pode se tornar o único leitor da terra que fecha a mente pra imaginação e criatividade em prol do que considera coerência ou um mundo mais vivo.
Ainda mais se considerarmos que na maioria dos casos quanto mais velho, menos aflorada criativamente a pessoa é, e esse atributo nunca vai ser exercitado mais do que conhecimento de lore.
Penso em 20 ganchos de aventura apenas conhecendo o básico de um monstro. Me aprofundo, tenho mais ganchos, até que a enxorrada de informação extra me obriga a trilhar apenas um caminho ou caminhos bem pareios.
Grande parte das ideias são jogadas fora se eu questionar se o dragão faria isso ou não. [EU CONHEÇO, MAS ESCOLHO NÃO ME LIMITAR TANTO]
Na Mina Perdida, o jogo diz: 'tem pegadas de 10 goblins e rastros de corpos arrastados, siga por aqui'. Isso é um gancho. O mestre 'coerente' estraga isso quando começa a exigir testes impossíveis ou a questionar: 'Mas como os goblins arrastaram um humano de armadura no barro sem apagar pegadas?'. Você não enriquece a cena, você coloca um muro na frente do jogador e mata a vontade dele de seguir a história.
É exatamente isso com minhas ideias.
Nos meus vídeos dizem que goblins não fazem isso, dragões não fazem aquilo mesmo eu conhecendo bem onde piso. JogaM baldes apenas por causa de um detalhe, seja alinhamento, orgulho. Então deveria ser simples de resolver, mas esses mestres são treinados para matar criatividade.
Imagina se eu fosse um MESTRE novo sendo confrontado dessa forma, me sentiria INTIMIDADO pra abandonar o hobbie ou seguiria o raciocínio dele pra ler cada detalhe do cenário pra ter uma mesa minimamente decente e me tornaria apenas mais um como esses são.
Instigaria a leitura, mas esses comentários não demonstram inteligência (desculpe), mas mataria minha capacidade criativa porque criatividade é exercício mais importante de improviso e de boas campanhas.
Se mestres não exercitam a criatividade e nem sabem o poder do cérebro, é porque priorizam coerência mais que imaginação e criatividade. E porque 30 anos consumindo o mesmo cenário e jogando com o mesmo grupo não te torna útil a um jogador iniciante com mais energia e ideias afloradas. Na grande maioria das vezes vai haver podas e julgamentos. [Já sofri MUITO e de forma pesada e já vi muito isso acontecer!]
Há um preconceito contra o viés criativo porque remete a novatos que não estudaram livros para adaptar algo familiar e transparecer essa característica mais "experiente" e coesa.
Você provavelmente já percebeu que todo livro existe espaço que requer pensamento e criatividade autoral pra ser preenchido, só quando preenchemos com pesquisas não podemos saber até onde o limite de certas coisas podem ir com os ganchos que já nos foram dado [dragão cromático com exército meio-dragão] porque nunca exercitamos o monstro criativamente naquele mundo e provar que nossa versão pode ser melhor que oficiais que não vão longe por se preocuparem demais com um público específico.
Só com ideias prontas toda a energia, história e personalidade não rompe os limites da criatura sem acabar batendo em algum teto, e por isso ou precisa remover o teto, que são alguns livros e conceitos ou trazer outras versões podadas e totalmente diferentes pra poder usar e correr o risco de ser julgado se expor isso.
Veteranos que consideram Tiamat mais que um personagem fictício feito pra ajudar na narrativa, vai pesar a mão na hora de julgar sua iniciativa de usar Tiamat em determinados conceitos por nunca ter imaginado isso, e não por ser impossível no cenário. [coloca orkus no lugar, combina mais]
Por isso eu vejo livros como tranpulins de ideias e nunca como teto. Eu leio muito e descarto o que não agrega. Por exemplo. Em Lords of Madness, uma parte diz claramente que toda magia do beholder fica no cérebro em uma região chamada dweomerlobes. [página 40]
Essa ideia existe para ganchos e inspiração, obviamente. Pensei em usar o cérebro pra criar um efeito que faz o jogador dormir na cidade e dungeons, monstros bizarros surgirem no meio da dela, porque o beholder altera realidade enquanto sonha segundo Volo's Guide.
Então eu juntei duas ideias do mesmo monstro em diferentes livros. E porque tanta gente ficou incomodada e falou merda? [já removi muitos comentários no vídeo] Porque treinaram o cérebro por anos no quesito "coerência" e por isso vão buscar lógica ou achar bizarro certos contextos naturalmente.
É triste quando o cérebro de uma pessoa se limita e busca lógica em um jogo onde baleias voam no espaço sem explicação plausível, e suas mesas perdem vida porque vão moldar a que eles mesmos exigem.
O jogo deveria estimular a capacidade cognitiva, mas por buscar sempre o que tá pronto e defender o cenário como a coisa mais absoluta, provam porque a comunidade tem tantas ideias repetidas e a geração é mais focada em combos, raças diferentes e monstros exóticos. Se você usa o goblin uma vez, não pensa em outras formas de usar, porque tudo o que ele éno livro já foi colocado ali. Percebe?
Isso mostra uma carência de criatividade, imaginação e liberdade criativa, algo que se perde, pois deseja suprir esse desejo com suplementos, raças e monstros bem exóticos só pra sentir que está jogando de forma diferente. Em outras palavras buscar na mecânica e material pronto algo que só a parte criativa pode fornecer, vai fazer você enjoar mais rápido do hobbie.
Um beholder doente sem querer pode lançar raios que curam, fazer magias que beneficiam os inimigos. Eu não sei se essa ideia existe oficialmente (provavelmente sim), mas é algo que eu pensei hoje.
Uma bruxa pode fazer o ritual de espionagem onde sacrifica um humano para usar o seu olho como um amuleto e espiar uma cidade. Mas imagine sacrificar alguém que que tem o olho do Vecna e usar esse olho para o ritual. Por desconhecer o artefato a bruxa realiza o ritual macabro com esse olho e acaba invocando o Vecna trazendo uma terrível maldição que a torna uma Lich. Algo bem incomum.
Ter coceiras no rabo e apontar "incogruências" por nunca ter pensado nisso vai te obrigar a fazer a bruxa igual dizendo: é impossível que a bruxa não reconheça este artefato. São especialistas em matar boas ideias em nome da coerência.
Infelizmente jogadores de RPG não têm mais criatividade ou inteligência que a média brasileira. Deveriam ter, mas acabam que eles se contaminam com a sociedade. Transformamos um exercício de imaginação pura em um "doutorado de quem sabe mais sobre o cenário e como isso deixa a mesa melhor." (e usam isso com orgulho, dizendo tenho 30 anos de RPG), tudo isso como justificativa pra discórdia, punição e destruição da criatividade alheia, e claro pra limitação de mentes mais inspiradas mentalmente. Deveriam acolher novos criadores, mas são apenas fiscal de Lore. [Gatekeeper]
E o mais irônico: eu defendo a forma antiga de jogar RPG onde improviso e liberdade criativa eram mais usadas. [AD&D, 3e]

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